Distorção

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011 às 20:33

Como são poéticas as ruas da cidade à noite.Brilham as luzes urbanas refletidas pela água da garoa.Dificil é contemplar,pois lá se escondem fragmentos da corrupção da alma dos homems,nos becos escuros.
Vivemos nos questionando sobre nossa existência,e sobre o fim dela.A extinção do Humano é uma pauta discutida por toda a parte do globo,cansamo-nos das repetitivas advertências quanto aos estigmas deixados por onde passamos.Apesar de tudo,a questão é simples: Qual a perspectiva de vida de uma raça onde semelhantes possam matar semelhantes a qualquer momento,mesmo em uma inocente noite de garoa?
Como o inferno de Jean-Paul Sartre,os outros sempre em nossos caminhos,impedindo o avanço.O prazer pela superioridade disfarça-se em "bem próprio" e toma prioridade,e o verdadeiro bem escapa debaixo de nossos narizes:a salvação,a união.

-E qual é a esperança para nós tolos condenados?

-Olhe para o espelho,meu caro.O que você vê?

Castelo Pulsante

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010 às 09:05
Era de muito bom gosto,moldada ao estilo de casas com ar de obra de arte,riquíssima em seus detalhes cheios de requinte,frondoso jardim dava as boas vindas mais acolhedouras a qualquer um que se dava ao luxo de aventurar-se às redondezas.Imponente portal de recepção vislumbrava os olhos dos mais exigentes e dos mais curiosos.
Ao se andentrar na mansão branca com tons vermelho sangue,a sensação era a de aventurar-se em páginas de revista,a surrealidade era tamanha que a gravidade vencia deixando todos de boca aberta,pois havia mobília acomodada confortavelmente no teto,e lustres reluzentes de cristais entornados de baixo para cima,como estacas transpassadas no assoalho,havia mobília também no chão,e objetos que flutuavam entre ambos.Havia grandes espelhos distribuidos aleatoriamente pelas superfícies da residência,e quando passei por eles,vi embaçadamente a imagem de outros,mas nunca a minha própria.
Devia estar louco,pensei.Precisava sentar e relaxar.Não seria problema pois o luxo e o conforto eram constantes do local onde me via presente neste momento.Havia um grande sofá que ocupava todos os cantos da grande sala,de aresta à aresta.Sentei-me.
Surpreendido quando me via caindo de traseiro naquele gigante tapete vermelho rubro,o exagerado sofá havia se tornado névoa diante dos meus olhos,denso nevoeiro que encobriu toda aquela grande mansão,como viajar de carro de manhã,ou como é dentro das Saunas,a fumaça impedia que minha visão chegasse além de alguns centímetros distante da palma das minhas mãos.
Até que a espessa nuvem branca que me recobria foi sugada por um ventilador colossal com hélices gigantes,rústico e com visíveis marcas de oxidação no ferro,que fazia um barulho de ranger de correntes enquanto girava não muito veloz.E eu agora estava solo,naquela enorme sala escura de paredes,teto e assoalho brancos,totalmente vazia.E o luxo,a riqueza,o conforto e as almas,não se via mais.A unica centelha que se destacava ali naquele solitário cômodo branco era a luz proveniente da porta no fim do grande corredor branco.E as paredes pulsavam ritmicamente,e o som da pulsação me fez adormecer.
Acordei em minha cama,com lágrimas nos olhos.Abracei meu travesseiro.Devia estar mesmo muito quente para dormir.

Renascer

sábado, 19 de junho de 2010 às 22:39

O sol está nascendo,posso ver seus raios brotando lentamente no horizonte,por trás das montanhas azuis.É um novo dia para o cantarolar dos pássaros e o desabrochar das flores tropicais,a brisa é límpida refrescante que lota meus pulmões de saúde e bem-estar.Do alto da colina,abro meus braços e fecho meus olhos.Naquele momento único,eu podia flutar.
O ontem foi chuvoso e nublado,os tons cinza pintavam a paisagem melancólica à sinfonia raivosa dos trovões,obrigando o mais intrépido a se esconder.Dias tristes e solitários,tudo o que eu desejava era calor.
Procurei de várias formas maneiras de me esquentar.Me cobrindo com plantas,cujos espinhos machucavam-me toda vez que me aproximava,abrigando-me com os animais,que me rejeitavam por não sermos da mesma espécie.O resultado era o mesmo,cheguei a pensar que meus dias seriam para sempre fadados ao grayscale.
Tolo,mal sabia eu das coisas.Eis que surge timidamente,exibindo seus primeiros feixes formosos de luz no horizonte,e ja era tão lindo,parecia poesia,seu calor era gostoso e acolhedor.E cessa a chuva,o cinza e o frio.

Meu lindo e doce Sol,que me acolhe e me aquece,manterei-o sempre radiante,pois mudaste meus dias,e me reviveste.

Bliss

terça-feira, 25 de maio de 2010 às 09:53

Uma casa decidi construir,simples e acolhedoura,com muitas janelas para a luz entrar (o escuro não me agrada), uma chaminé para que o cheiro de boa comida se espalhe nos arredores,e um tapete de boas vindas na entrada principal.

E assim a fiz,nos mínimos detalhes.Entrei,tomei um lugar no chão,e observei.

Algo faltava,não estava satisfeito.

- Uma boa mobília e cores vivas é o que falta.Garanto-lhe que assim tua insatisfação cessa.

Era o que diziam-me,e foi exatamente o que fiz.Pintei minhas paredes da cor dos lírios,das rosas e dos girassóis,construí mobília de madeira nobre com cheiro de natureza: um sofá,cadeiras,mesas e uma cama grande.

Entrei,tomei um lugar no sofá,e observei.Algo faltava,não estava satisfeito.

-Se tua casa tem cor de flores,e cheiro de floresta,um jardim é tudo o que resta.Garanto-lhe que assim a tua insatisfação cessa.

E foi exatamente o que fiz.Colhi mudas de pinheiros,ipês,pingos d'ouro e dentes-de-leão,cultivei-as com carinho até que se tornassem exuberantes em meu jardim,onde um magnífico tom de verde era refletido das folhas sob a luz do sol da manhã.

Tomei um lugar no jardim,e observei.Algo faltava,não estava satisfeito.

Segui o os conselhos deles,mas continuava infeliz.Meu jardim e minha mobília preenchiam apenas o vazio de meu humilde e doce lar,que por mais acolhedor fosse,era apenas um lar.Então de que valeu todo meu esforço?

Entorpecido por tal indagação,a fúria me tomou conta,estava prestes a cortar todas as flores,destruir as paredes e os móveis.Foi quando uma figura feminina apareceu em meu tapete.

-Tens uma casa tão bela,de cores tão vivas e um charmoso jardim.É mesmo um doce lar.

E seu sorriso combinava com as cores alegres das flores,sua pele reluzia junto ao verde das folhas,e o perfume de seus cabelos esvoaçados era tão suavemente bom quanto o perfume da natureza.Só então entendi.

O que faltava em minha vida,era você.

O Parque

quinta-feira, 15 de abril de 2010 às 10:04

O dia amanheceu colorido hoje.Pássaros dançando suavemente na brisa,as crianças como sempre energéticas no parque.Pelo menos aqui,o ar não se deixa contaminar pela fumaça da civilização.Pessoas correndo em vagaroso trote para botar a saúde em dia,ou só o papo,enquanto eu caminhava junto à minha tranquilidade,observando aquela bela manhã.
-Olha mãe! Vo escorrega!
-Você viu o carro novo dela? Gente,que sonho.
-Eu te amo,meu amor
.
Eram coisas comuns de se ouvir.Ah,como pode ser belo o som de outros seres!
Mas alguém em particular roubava minha atenção.Não,não era uma bela mulher caminhando,mas uma garotinha,devia estar nos seus 8 anos,chutei.Sentada sozinha em um dos bancos do parque,tinha seus olhos fixos em mim,sua feição triste me incomodava,parecia estar com dó.Ignorei-a,voltei meu olhar para a frente,e lá estava ela,em pé,me encarando de perto,como ela fez isso?
-Porque o senhor está triste?
-Triste?
-Sim,está com a face abatida.
Fiquei calado.
-Porque o senhor só observa a vida em volta de você?
-Eu gosto de observar.
-Gosta mesmo? Ou prefere não se envolver,para não se arrepender depois?

Não consegui pronunciar.Aquela frágil criança me tirava as palavras.
-Vamos,não fique assim
Ela apertou minha mão,e sorriu.
-Eu entendo os seus medos,seus sonhos,seus arrependimentos,seus desejos.Você ainda porta dores gritantes por se envolver,mas não pode negar que a sua memória está cheia de momentos felizes.Se quer mais deste sentimento gratificante,não se contente só em observar.
E a garota sorriu outra vez.O espanto era tamanho,que não consegui colher palavras para respondê-la.Como um pequeno fragmento de gente conseguira tocar a minha melancolia tão eficazmente?
Olhava em volta,e todos estavam parados e sorridentes,com seus olhos voltados para mim.O que estava acontecendo naquela estranha manhã?
Por um instante,tudo se apagou.Abri os olhos,e agora o que via era o teto do meu quarto escuro.Virei meu rosto para o lado,e ali estava a minha mulher,com seus braços envoltos em mim,como um anjo adormecido.A imagem daquele lindo sorriso infantil invadiu meus pensamentos,e com ele,as palavras,que ecoaram no interior de meu crânio.Beijei-a.
-Eu te amo.
Era um novo começo.
segunda-feira, 12 de abril de 2010 às 08:51
O que você fez hoje pra sair do comum?

Fluxo

domingo, 11 de abril de 2010 às 13:11


Guiado pelas massas,que vivem roboticamente,buscando seus futuros já traça
dos por moldes,sentia-me puxado por uma força maior,chamada sociedade.

-Sacrifica tudo em que acreditas,seus sonhos e seus desejos,e molda a tua vida ao meu esquema,que serás feliz.


O que me era "dito" subjetivamente,dia após dia.Era como se uma parte de mim morresse a cada momento que passasse com aquelas pessoas,fazendo as mesmas coisas óbvias de todo o dia.Eu,que tanto lutei para escapar do fluxo,estava sendo vencido?
Percebia que meus momentos de reflexão lentamente deram lugar à pensamentos triviais.Minha mente estava entupida de lixo,eu estava me tornando um deles,um condenado.
Mas como poderia escapar disto? Chega a ser irônico,pois para viver,você precisa daquela que te tira o melhor da vida.

-Venha.Sem mim,você não tem futuro.

Ela me atiça,e me hipnotiza.Acordei em meio ao meu transe.Por pouco,não foi muito tarde.
Mas,mesmo ciente de que é errado,amanhã terei de me juntar novamente às massas.Vivenciar toda a velha estupidez,e participar dela.
Ó,fluxo que me acorrenta,juro que enquanto a minha consciência pertencer a mim,estudarei uma forma de opor-me a ti.

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